A banalização da ‘Girl Boss’

A banalização da ‘Girl Boss’

Nos últimos dois anos a gente vem vivendo um fenômeno na propaganda mundial, onde as mulheres estão cada vez mais preocupadas com o jeito com que são retratadas na propaganda. Nós já fomos objetos em tudo quanto foi campanha e volta e meia a galerinha da publicidade cai na armadilha. Só que além disso, a questão do “girl power” também, na minha visão, pode ter se tornado um problema.

Eu amei o livro “Girl Boss” da Sophia Amoruso. A mulher realmente construiu um império, um nome, e é legal a gente se inspirar nela pra conquistar as coisas. Mas acredito realmente que a indústria se apropria disso e tem criado nas mulheres mais um ponto de ansiedade, peso e culpabilização. Explico.

Em primeiro lugar: cacei e não achei um termo equivalente à “pinkwashing” (a “lavagem” que a publicidade realiza em marcas para que elas apoiem a causa LGBTI+ apenas superficialmente, para vender produtos aos “simpatizantes”) para a lavagem que a publicidade para o “público feminino” sofre. Então vou apenas me referir de outras formas neste artigo. Nós mulheres somos alvos lucrativos de publicidade pesada, e isso se soma em todas as etapas do consumo: do lazer aos remédios, aos produtos infantis e para casamentos, alimentícios, tudo. Mas com frequência somos tratadas de um jeito condescendente pela mesma indústria.


E aí que entra a mulher “girl boss”. Ela é vendida como aquela que corre atrás dos seus sonhos. Que ganha dinheiro. Que é dona da sua verdade. E em cima dessa imagem, se vendem inúmeros produtos, cursos, se vende a Kylie Jenner a quase bilionária, a Tudo Orna com fotos perfeitas no Instagram, a Luiza Trajano com um conglomerado gigante e assim por diante.

Longe da realidade

Mas quem é realmente essa girl boss? aquela real mesmo? Quem são as mulheres que todos os dias acordam cedo, que empreendem pra colocar comida na mesa, e que vivem relacionamentos abusivos no machismo estrutural que vivemos?

A Kylie é rica desde o nascimento, então sua empresa não é “girl boss”. É “dinheiro boss”. Ela construiu coisas a partir de um certo ponto, mas é seguro dizer que sua história é a exceção e não a regra. O mesmo vale para a Tudo Orna. A Magazine Luiza lançou recentemente um “botão” contra a violência doméstica para ajudar mulheres e guess whats: ele não funcionava muito bem.

Cito esses exemplos não pra esculachar ou culpabilizar mais essas mulheres, que mesmo sendo MUITO privilegiadas sofrem a cota delas de machismo, mas pra colocar um ponto aqui: a cobrança de ser uma “girl boss” e uma empreendedora “de sucesso” é um discurso cada vez mais esquisito e está sendo cooptado com frequência pois gera identificação das mulheres que sonham com um futuro melhor (já assediadas em peso pela propaganda), apenas pelos ganhos possíveis.

Não é à toa que tem homem dando curso sobre como ser uma mulher empreendedora.

Cobranças

Todo mês de outubro somos inundadas de artes rosas com estampas infantilizadas dizendo “outubro rosa”. Eu mesma me deparei com a demanda na minha agência. Recebi de um cliente a cobrança “cadê o post do outubro rosa??? meu concorrente já postou”. Fim.

Nos sentimos culpadas, impostoras, aprendemos as coisas fazendo pois temos diversas outras coisas pra gerenciar que são tão importantes quanto. Somos cobradas de todos os lados pela nossa aparência, pelas nossas habilidades, pelo nosso gênero. Aí no fim do dia, no Dia da Mulher, ganhamos uma rosa murcha e um sorriso amarelo. Ainda ganhamos menos, e empreendemos mais nas horas vagas para sustentar nossa família, e é isso que ganhamos depois: a romantização desse empreendedorismo, a banalização dele e ainda a separação do empreendedorismo em si.

A própria ideia do “feminino” após o “empreendedorismo” é algo inquietante. Os homens não são “empreendedores masculinos”, eles são somente “empreendedores”.

Dei um google de 5 minutos aqui e cai na revista Exame e na manchete: “Empreendedoras criam um sócio de mentira para comprovar machismo nos negócios”. Outra matéria também da Exame: “Para a empreendedora Ana Fontes, idealizadora da Rede Mulher Empreendedora, a discriminação de gênero atrapalha as empreendedoras em outros âmbitos, como a dificuldade de acesso a crédito”.

Então eu realmente acho que a gente deveria começar a repensar e a rechaçar a ideia da Girl Boss, e a questionar se isso não é só mais uma forma de nos vender alguma coisa que não nos valida, não nos ajuda, não combate os problemas do sistema e apenas nos traz ansiedade e mais cobrança.

Faz assim: hoje em vez de ser “girl boss”, seja só você mesma, só a mulher que você lutou tanto pra ser. A que tem um monte de problemas, ansiedade, que rala feito doida pra conseguir as coisas, que não desiste e que no fim do dia só quer um pouquinho de respeito. Você mesma.

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